Navios tanque carregados de petróleo

Quatro dias depois de o Irã bloquear a passagem de navios pelo Estreito de Ormuz, principal rota de escoamento da produção do Oriente Médio, o preço do barril de petróleo chegou a US$ 85 – valor mais alto desde julho de 2024. 

Desde o início dos conflitos, o preço do Brent (referência internacional de petróleo) subiu 30%. Mas, até agora, há poucos sinais de pânico: o petróleo permanece bem abaixo dos US$ 128 alcançados após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022.

Seguradoras cancelaram a cobertura para embarcações e as taxas globais de frete de petróleo dispararam. Em tempos normais, a via agora interditada é por onde passam um quinto da produção mundial de petróleo e um volume significativo de gás natural liquefeito (GNL), com destino principalmente à Ásia

A situação é incerta, e a reação moderada do mercado até aqui pode mudar a qualquer momento. Mas o movimento é pequeno perto dos grandes choques históricos do petróleo. O choque dos anos 1970 fez os preços dispararem 260%. A revolução islâmica do Irã, em 1979, provocou uma alta de cerca de 160%. Já a invasão do Kuwait pelo Iraque, em 1990, levou a um aumento de aproximadamente 180%.

A estratégia do regime iraniano parece ser uma tentativa de espalhar o conflito. O país atacou infraestruturas energéticas importantes em países do Golfo, como a maior planta de gás natural liquefeito (GNL) do mundo, no Catar, e uma das refinarias de petróleo mais importantes da Arábia Saudita. 

Mas a relação do mundo com o petróleo mudou nas últimas décadas. As economias desenvolvidas dependem menos do líquido, principalmente do que vem do Golfo Pérsico. A lista de fornecedores mudou. Os EUA são agora o maior produtor mundial, e há novas reservas da Guiana, do Brasil e do Canadá.

O dado decisivo parece ser a duração do conflito. “O mundo hoje não está trabalhando com a hipótese de não ter mais acesso a 20 milhões de barris por dia que passam pelo Estreito de Ormuz. Se estivesse, o preço estaria muito mais alto”, diz Clarissa Lins, CEO da Catavento Consultoria e ex-membro do conselho administrativo da Petrobras.

Em outras palavras: a resiliência está dando conta do recado – pelo menos por enquanto.

Diesel e inflação

Isso também vale para o Brasil. O país não deve sentir grandes impactos no curto prazo, dizem especialistas ouvidos pelo Reset

A principal razão é que a produção doméstica é suficiente para o abastecimento interno. O país produz cerca de 5 milhões de barris de óleo equivalente por dia, consome aproximadamente 3 milhões e exporta 2 milhões.

Outro motivo que reduz a vulnerabilidade são as rotas logísticas e a variedade de mercados, que diminuem a dependência das regiões do conflito. 

“Temos folga no abastecimento interno”, diz o presidente da Associação Brasileira das Empresas de Bens e Serviços de Petróleo (ABESPetro), entidade que reúne empresas que prestam serviços a petrolíferas. “Se fosse há 30 anos, a preocupação seria enorme. Hoje, não há risco de falta de petróleo. O setor aprendeu com a volatilidade do passado.”

O ponto de maior vulnerabilidade, no entanto, está no refino. Apesar da autossuficiência na produção do petróleo bruto, o Brasil ainda importa parte relevante do diesel, principalmente dos Estados Unidos. O preço do combustível acompanha as oscilações do barril no mercado internacional.

Variações no custo do diesel se espalham pela economia. Ele impacta diretamente o frete rodoviário, principal meio de transporte de mercadorias e serviços no país. 

“Se o barril sair de US$ 85 e chegar a US$ 100, a nossa inflação começa a ser pressionada. Não só pelo preço do combustível, mas pelo encarecimento do frete, que é repassado para as mercadorias, inclusive alimentos”, diz Márcio Sette Fortes, economista do IBMEC e ex-diretor do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Na mira

Dois indicadores concentram a atenção do mercado neste momento: o custo do frete marítimo global e o valor do seguro para embarcações, avalia Lins. 

Com o aumento das tensões no Golfo, as seguradoras têm reduzido ou cancelado a cobertura contra risco de guerra e as taxas de frete de petróleo devem aumentar ainda mais.

A variação dessas taxas pressiona o preço do barril. “O seguro tende a ficar cada vez mais caro, e isso mostra o quão arriscado está tirar petróleo da região. Esses custos também impactam a determinação do preço do barril”, diz Fortes.

Novas fronteiras

A indústria do petróleo opera com ciclos longos, de 7 a 15 anos, o que desencoraja reações rápidas a choques de curto prazo. Para Lins, da Catavento, não é esperado que as empresas tomem decisões de novos investimentos ou alterem seus planejamentos estratégicos neste momento.

“Seria absolutamente leviano você ter que tomar decisão de investimento com base num preço altamente volátil. Mesmo em campos de pré-sal já ativos, um investimento para aumentar a produção levaria pelo menos 5 anos para dar retorno, e novas descobertas podem levar até 15 anos”, diz. 

Além do tempo do desenvolvimento dos projetos, o país não é o mais competitivo, diz Ricardo Fujii, especialista em transição energética no WWF Brasil. “Não somos o país que produz de forma mais barata nem o que consegue investimentos mais rápidos. Dobrar a aposta no petróleo seria arriscado.”

E a transição? 

A escalada regional recoloca a segurança energética no centro do tabuleiro, segundo Natalie Unterstell, presidente do Instituto Talanoa, centro de estudos especializado em política climática. 

“A ameaça ao fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz pode reforçar o interesse estratégico em reduzir a dependência de fósseis, não pela questão da mudança do clima, mas pela  segurança”, diz.

A experiência recente mostra que choques geopolíticos, por si só, não aceleram a transição. Exemplo disso é a guerra entre Rússia e Ucrânia. Para Unterstell, neste contexto, a transição só avançaria se passar a fazer parte do “cálculo de poder”.

Diferente do choque de preços de 2022, que afetou diretamente a Europa, dessa vez os países asiáticos são os mais expostos, principalmente a China. O país tem realizado uma acelerada transição energética nos últimos anos e deve apresentar seu planejamento econômico e social para os próximos cinco anos nos próximos dias. 

A transição para uma economia de baixo carbono depende de um ambiente estável para acontecer, afirma o economista Winston Fritsch, ex-secretário de política econômica do Ministério da Fazenda. 

“Para que investimentos sejam feitos, é preciso ter previsibilidade de preços. Esse nível de incerteza não é bom para isso”, afirma. 

Margem Equatorial

Nenhuma mudança importante é esperada agora em relação aos planos para Margem Equatorial, onde a Petrobras é a única com operação ativa de exploração. “Do lado brasileiro, não há nada diferente para acontecer agora [na Margem Equatorial], afirma Ghiorzi, da ABESPetro. “A Petrobras vai seguir no seu ritmo de buscar novas reservas para recompor e preservar seu portfólio.”

Vista como uma nova fronteira de produção, a Margem Equatorial teria potencial de produzir até 6,2  bilhões de barris, segundo estimativas da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Para ter uma ideia, em 15 anos de pré-sal, o país já produziu 5,5 bilhões de barris.  

Um eventual efeito indireto pode vir da Guiana Francesa, território da França, segundo Ghiorzi. Em 2017, o Senado francês proibiu a exploração de petróleo no território francês, incluindo áreas fora da Europa. Nos últimos meses, porém, o tema voltou a ser debatido. 

A Guiana Francesa faz parte da mesma região geológica que as áreas da Guiana (ex-colônia britânica) e do Suriname, onde foram feitas descobertas de grandes reservas de petróleo. 

“Caso o Parlamento francês revogue a restrição, a atividade exploratória no chamado Planalto das Guianas pode ganhar impulso, ampliando a movimentação também na margem brasileira”, diz Ghiorzi. “Em um cenário de insegurança energética prolongada, países podem rever decisões anteriores.”

Para ele, um cenário de aumento da procura por novas áreas de produção poderia pressionar o segmento de sondas de perfuração offshore. Esses equipamentos usados para perfurar poços em busca de petróleo, em geral, são contratados pelas petroleiras a empresas especializadas com uma taxa diária em torno de US$ 300 mil. 

“Se vários países começarem a acelerar a exploração em novas áreas, pode haver aumento de demanda por sondas e elevação de preços no mundo inteiro”, diz Ghiorzi.

Ele explica que a quantidade de sondas disponíveis no mundo se mantém constante pelo alto custo do equipamento e elas podem ser deslocadas entre países. Na prática, o efeito do preço também será sentido pelas petroleiras brasileiras.