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COP30: Presidência faz apelo para empresas irem a Belém

Engajamento “deve acontecer não apenas onde é fácil, mas onde é mais importante”, escreve embaixador Corrêa do Lago em carta dirigida ao setor privado

Foto aérea de Belém por Rafael Medelima (Agência Brasil)

“Essas conversas cruciais devem acontecer não apenas onde é fácil, mas onde é mais importante”. A reflexão sobre a realização da COP30 em Belém foi a principal mensagem da sétima carta do presidente da conferência, André Corrêa do Lago, dirigida ao setor privado. 

Em meio a possibilidade de uma COP com menor participação das empresas por conta da crise de hospedagem em Belém, Corrêa do Lago convoca as empresas a participar do evento.

O embaixador reconhece os desafios logísticos da capital paraense, mas afirma que a região é o lar de pessoas que estão “na linha de frente da crise climática”, e, ao mesmo tempo, no cerne de suas soluções. Sendo a Amazônia um símbolo da urgência climática, Corrêa do Lago acredita que o bioma é o lugar para “arregaçar as mangas, ouvir, aprender e participar do espírito colaborativo do mutirão global”.

O embaixador também aproveitou para enfatizar que a transição climática é irreversível e o setor privado deve se posicionar na vanguarda dessa transformação.

“Como indicou recente relatório das Nações Unidas, a energia limpa, sozinha, gerou mais de US$ 2 trilhões em investimentos globais somente no ano passado, após ter gerado quase 35 milhões de empregos em 2023. No Brasil, o Tesouro Nacional, empresas e bancos emitiram mais de US$ 30 bilhões em títulos verdes até 2024, todos com juros mais baixos do que os títulos tradicionais – enquanto o setor de energia renovável gerou mais de 1,5 milhão de empregos”, escreveu. 

Iniciativa privada

Falando a jornalistas sobre o documento, Corrêa do Lago afirmou que é hora de dar uma atenção especial ao empresariado, que deve participar de maneira ativa da conferência por meio da Agenda de Ação.

Trata-se do mecanismo que reúne os esforços de todos os atores que não são governos nacionais e portanto não são partes formais da conferência. Ao longo dos dez dias da COP30, 420 reuniões paralelas irão discutir como implementar metas relacionadas a seis eixos temáticos.

Segundo Corrêa do Lago, a credibilidade da conferência depende de mostrar avanços não apenas nas negociações entre países, mas também na implementação de soluções concretas. 

“O setor privado pode ter um papel muito maior, vendo oportunidades econômicas além do que os governos recomendam. Os setores que sentem que podem perder são muito mais ativos do que os que podem ganhar. Queremos mudar a lógica focando nos ganhos possíveis. O setor privado deve focar no quanto pode dissecar do que já está aprovado, e não do que será disputado”. 



O presidente da COP30 também acredita que as empresas estão percebendo que a transição climática não depende apenas de governos, com um entendimento de que as administrações são passageiras, enquanto a transição climática não é.

“Eu espero que elas tenham um pouco de coragem, mas estamos notando que está difícil ter coragem”, disse ele, referindo-se ao momento anti-transição climática nos Estados Unidos. Instituições financeiras vêm sendo alvo de ações judiciais movidas por Estados controlados pelo Partido Republicano (de Trump). Uma das alegações é que gestoras de recursos, por exemplo, estariam colocando suas agendas climáticas à frente do interesse de seus clientes.

Lição de humildade

Nesta semana, a Aliança Bancária pelo Net-Zero (NBZA, na sigla em inglês), anunciou a suspensão das atividades e deve fazer uma reunião para decidir quais serão as ações da iniciativa a partir de agora. 

A NBZA está debaixo do guarda-chuva da Aliança Financeira de Glasgow para o Net Zero (Gfanz, na sigla em inglês), uma coalizão financeira global, como bancos e gestoras de ativos, que está desidratada diante do clima anti-transição climática nos EUA.

A criação do Gfanz é um exemplo de mobilização do setor privado em torno dos objetivos do Acordo de Paris. Mas a aliança vem enfrentando oposição política, principalmente nos Estados Unidos, e sofrendo o abandono de algumas das maiores instituições financeiras do mundo.

“Quando anunciado na COP26, em Glasgow, o Gfanz parecia uma ideia que iria pegar. Mas pegou muito menos do que se imaginava. É uma lição de humildade”, afirmou Corrêa do Lago.

O momento difícil nos Estados Unidos deu origem a um novo termo: “greenhushing”. Ele se refere às empresas que mantêm seus compromissos de descarbonização, mas evitam dar publicidade a seus esforços para não serem alvo de políticos que negam a existência da crise climática.

“As empresas, para se defenderem, tiraram seus compromissos mais abertos, mas continuam trabalhando e financiando as coisas certas, com menos visibilidade e não dentro de movimentos. Mas a transição é inevitável e elas estão se preparando para estarem à frente das oportunidades”, disse Ana Toni, CEO da COP30.

Apesar disso, Toni vê motivos para otimismo. “Muitas empresas já são pioneiras na transição em diversos setores. A gente percebe que as NDCs estão sendo feitas com muito mais detalhes, com planos setoriais específicos, para dar mais segurança ao setor privado. A carta enfatiza esse desejo para que a relação entre iniciativa pública e privada seja fortalecida”.