As negociações das Nações Unidas sobre biodiversidade acabaram com palmas e suspiros de alívio. Na noite desta quinta-feira (28), diplomatas reunidos em Roma concordaram em criar uma estratégia para mobilizar US$ 200 bilhões por ano até 2030 para conservar e restaurar a biodiversidade. Também será elaborado um plano para estabelecer um mecanismo financeiro mais igualitário para gerir esses recursos.
A decisão, aprovada nos momentos finais da COP16 da Biodiversidade, vem meses após a suspensão da conferência em Cali, na Colômbia – travada pela falta de consenso dos países sobre o financiamento para a natureza. A COP16.2, como foi chamada a continuação na sede da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), durou apenas três dias.
O resultado foi uma “solução equilibrada e de compromisso” e o Brasil está “muito feliz”, disse Maria Angélica Ikeda, chefe da delegação brasileira, à AFP.
A mobilização de recursos e a criação de um mecanismo financeiro eram os pontos de maior divergência entre os mais de 150 países que compõem a Convenção de Diversidade Biológica (CDB). Os países em desenvolvimento, que concentram a maior parte da biodiversidade global, exigiam a criação de um veículo permanente para gerir o dinheiro destinado a conter os danos à natureza.
Hoje, esses recursos estão sob o guarda-chuva do Global Environment Facility (GEF), do Banco Mundial. Países do Sul Global criticam a falta de representatividade nas decisões feitas pelo GEF, inicialmente previsto para funcionar como solução temporária. Brasil, Equador e Colômbia – que abrigam a floresta amazônica – revezam um assento no conselho, enquanto Estados Unidos e Alemanha, por exemplo, têm cadeiras permanentes.
A demanda dos países em desenvolvimento foi o maior ponto de discussão. “Houve debates até bem acalorados entre os blocos, porque a convenção determina, por meio de seu artigo 21, que um mecanismo permanente deveria ter sido implementado na COP1. Estamos na COP16 e ele ainda não existe”, diz Isabella Estabille, sócia do Marinello Advogados.
Ontem, depois de mais de 30 anos, os países deram um passo nessa direção e concordaram que se estabeleça um mecanismo sob a COP da biodiversidade, com uma abordagem “justa, equitativa, inclusiva, eficiente e representativa”. Restam dúvidas ainda de como ele vai funcionar.
A proposta (aprovada) dos BRICS
Na retomada das negociações, na terça-feira (25), Susana Muhamad, presidente da COP16 que recentemente renunciou ao Ministério do Meio Ambiente da Colômbia (na foto acima), apresentou uma proposta a partir das conversas regionais e bilaterais que conduziu desde novembro.
O documento não agradou países em desenvolvimento, que entenderam que o texto pendia mais para o lado dos Estados ricos. Países africanos bateram na tecla para a criação de um novo fundo e os europeus, para a manutenção do GEF.
Foi então que o BRICS, presidido pelo Brasil neste ano, apresentou sua proposta, que baseou a discussão do último dia da conferência e o texto final. A maior parte das negociações foi atrás de portas fechadas.
Os países concordaram em trabalhar em duas estratégias até a COP19, que ocorre em 2030, prazo para que os países cumpram o Marco Global da Biodiversidade, o “Acordo de Paris da Natureza”. Eles irão se debruçar sobre os obstáculos para a mobilização de recursos para a biodiversidade e identificar e implementar medidas para permitir a captação de diferentes fontes públicas e privadas.
Em paralelo, seguirão um roteiro para revisar os fundos existentes e decidir a governança e operação do novo mecanismo financeiro. A CDB lida hoje com um universo de diversos fundos, incluindo o recém-lançado Fundo Cali, que reunirá os recursos de entes privados que usam informações de sequenciamento digital (DSI) de biodiversidade.
Em troca do novo mecanismo, o mundo em desenvolvimento concordou em um prazo mais longo de discussões sobre os detalhes operacionais.
A delegação brasileira foi determinante na sala para que se chegasse a esse consenso, diz Giuliane Bertaglia, pesquisadora e consultora da Agroicone. “O Brasil foi muito estratégico, porque fez uma ação bastante coordenada com os BRICS, o GRULAC [Grupo de Países da América Latina e Caribe] e com os megadiversos, mais de dez países com a maior biodiversidade do mundo.”
O movimento chamou a atenção por se diferenciar da organização por blocos regionais que costumam acontecer em COPs.
Em tempos de Trump
O sucesso da COP16 vem em um momento de tensão na diplomacia da sustentabilidade, com a retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris e dos cortes de ajuda externa do país. Nos anos recentes, os EUA contribuíram com ao menos US$ 385 milhões para o financiamento da biodiversidade por meio da Agência Internacional de Desenvolvimento.
O país não é signatário da CDB, mas costuma ter influência sobre suas decisões. Na presidência de Donald Trump, diferentemente da normalidade, nenhuma autoridade foi enviada pelo governo à conferência.
“Na segunda era Trump, o objetivo [dos países] era deixar claro um ponto: sim, o mundo ainda pode trabalhar em conjunto para combater o colapso ambiental”, escreveu o jornal europeu Politico.
No discurso final, a presidente Muhamad falou sobre a união do mundo pela missão de proteger a natureza. “E isto não é algo pequeno neste cenário geopolítico tão polarizado, fragmentado, dividido e conflituoso.”
O acordo demonstra que a mensagem de “sem finanças, sem proteção” chegou às salas de negociação, afirmou Laura Caicedo, coordenadora de campanhas do Greenpeace Colômbia. “Agora é crucial que os países do Norte Global honrem seus compromissos e traduzam as decisões de hoje em financiamento real para proteger a biodiversidade na América Latina e no mundo. Esse progresso enviaria um sinal positivo antes da COP30 do Clima no Brasil.”
A COP16 também aprovou medidas importantes na parte de monitoramento do progresso dos países em direção às metas do Marco Global da Biodiversidade e um maior diálogo entre os ministros de economia e meio ambiente dos países signatários da CDB.
*Foto: Earth Negotiations Bulletin/IISD