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A nove meses da COP30, o que esperar?

Infraestrutura, temas obrigatórios, líderes participantes e protagonismo brasileiro – quais as expectativas para a conferência, em Belém

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A nove meses da COP30, o que esperar?

Trinta e três anos após sediar a conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a ECO-92, o Brasil volta ao centro da diplomacia climática global. Dessa vez, de forma ainda mais simbólica, como país sede da 30ª Conferência das Partes (a COP30).

A ECO-92 aconteceu no Rio de Janeiro, já a COP30 será realizada em pleno coração da floresta Amazônica, em Belém, entre 11 e 22 de novembro.

Trata-se do maior e mais importante fórum para discutir caminhos e soluções para enfrentar a tão urgente crise climática. Faltando apenas nove meses para seu início, todas as atenções já se voltam para o Brasil e para como o país está se preparando.

A COP29 recebeu cerca de 56 mil participantes, e a COP28, recorde de público até hoje, mais de 80 mil. Será que o Brasil superará esses números? Parte indica que sim. Além dos debates, a COP30 é uma oportunidade única para todos os interessados em conhecer a Amazônia, sua biodiversidade, belezas naturais e diversidade cultural, tornando um destino atraente para líderes de estado, empresas, representantes da sociedade civil, ativistas ambientais e curiosos interessados em participar do grande fórum climático do ano.

Mas sediar uma COP requer planejamento, organização e capacidade de execução. Estamos gabaritando nesses três pontos? Existem dúvidas. As críticas à infraestrutura (aquém do necessário) de Belém já começaram. Os preços de hospedagem estão absurdamente altos (e ainda tem as passagens aéreas). Além disso, ruído fiscal, cenário macroeconômico desafiador, questões políticas, confrontos geopolíticos, queda do multilateralismo, tudo isso pode desviar a atenção da COP30.

Pensando no universo dos investidores, vale comentar que uma semana antes da COP30 acontece o evento PRI In Person, principal conferência de investimento responsável do mundo, em São Paulo. Embora cedo para dizer, existe receio de que, dado os desafios de deslocamento (e hospedagem) da COP30, parte dos investidores acabe optando por participar de forma presencial no PRI In Person em detrimento de ir até Belém.

Uma década desde o Acordo de Paris

Mas sejamos humildes: não é só pelo fato de ser sediada no Brasil que esta edição da COP vem atraindo tamanha atenção. Com o aumento da frequência e intensidade de eventos climáticos extremos ao redor do mundo, o interesse por discutir soluções para combate-los também cresceu.

Além disso, 2025 marca os dez anos do Acordo de Paris. Estamos no meio do caminho de uma década decisiva para a ação climática.

Em meio à euforia que se seguiu desde a assinatura, em 2015, muitos países e empresas assumiram grandes metas de descarbonização com 2030 como prazo comum. O que acontece agora é que, à medida que nos aproximamos da metade da década, traduzir tais metas em ações tangíveis continua sendo o principal desafio.

Nesse sentido, vemos 2025 como um ano decisivo para os países e as empresas monitorarem quanto estão avançando no cumprimento dos objetivos preestabelecidos. Conversas com investidores apontam que eles estão prestando atenção ao tema. E a COP30 pode ser um bom momento no modelo de “prestação de contas”.

Esta edição também coincide com o prazo para os países enviarem novas (e mais ambiciosas) Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs, na sigla em inglês). Dos 197 países que fazem parte do acordo, apenas dez (Brasil incluso) apresentaram suas metas climáticas no prazo inicialmente estipulado (10 de fevereiro).

Devido à baixa adesão, a ONU postergou o prazo limite para setembro. Com um início nada promissor, a pergunta que fica é se até setembro as demais 187 nações terão algo para mostrar. Só o tempo dirá.

E a lista VIP?

Será que basta recorde de público na COP30, ou precisamos de nomes de peso presentes para fazer valer a conferência? A lista VIP começa pela cobiçada presença (ou não) de Donald Trump. Os Estados Unidos são o segundo maior emissor de gases de efeito estufa do mundo, e sua ausência pode demonstrar não só uma mudança de rota – já declarada – da agenda climática do governo americano, mas trazer sérias consequências para a efetividade dos resultados da conferência.

As chances de ele estar presente não parecem altas. E outro ponto que preocupa, caso ele não venha, é isso influenciar outras lideranças a também pularem essa edição. E dado que as mudanças climáticas são um desafio coletivo, quanto mais atores na mesa de negociação, melhor.

Quem mais deve vir? Esperamos que lideranças dos países emergentes, principalmente dos 11 membros da cúpula dos BRICS – um mecanismo de coordenação e cooperação entre países do Sul Global –, composto por Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã. Eles devem apresentar uma frente unida, em busca de maior influência e protagonismo global.  

Entre os líderes europeus, historicamente vocais na defesa de uma agenda verde, muitos são esperados, com destaque para representantes do Reino Unido, França e Alemanha.

A participação do setor privado também se destaca. Vimos uma presença massiva da indústria de fósseis nas últimas duas COPs, ambas sediadas por países produtores de petróleo (Egito e Azerbaijão). A história deve se repetir por aqui, com importantes CEOs marcando presença.

Potencial diplomático do Brasil

Não é de hoje que o Brasil busca um papel mais proeminente na diplomacia internacional. Contudo, esse protagonismo é muitas vezes ofuscado por questões geopolíticas, além de desafios políticos e macroeconômicos domésticos. Nesse sentido, a COP30 é uma boa oportunidade para o país ampliar sua influência na diplomacia climática global.

Como potência diplomática, com laços sólidos com os 198 estados-membros da ONU e um papel de liderança na América Latina, a posição do Brasil como anfitrião oferece uma oportunidade única para: (i) destravar as negociações, agindo como mediador para superar diferenças e construir consenso entre as diferentes opiniões; e (ii) incentivar compromissos mais ambiciosos.

Na agenda doméstica, o país pode avançar nas entregas do Plano de Transformação Ecológica, um ambicioso pacote verde cuja intenção é buscar desenvolvimento sustentável para impulsionar o crescimento econômico do país. Dentre os programas, vale destacar o mercado regulado de carbono, a taxonomia sustentável e as emissões de títulos soberanos sustentáveis.

Desmatamento e biodiversidade

Como nas últimas COPs os países anfitriões influenciaram a agenda com base em seus interesses, há expectativas de que particularidades do Brasil também moldem a agenda da COP30. De forma geral, três principais temas são esperados:

(i) uso da terra e desmatamento: quase 50% das emissões de gases de efeito estufa do Brasil são provenientes do uso da terra e do desmatamento. Embora as taxas de desmatamento na Amazônia tenham diminuído no ano passado, o país deve continuar enfrentando certa desconfiança em relação à promessa de interromper e reverter o desmatamento até 2030 (feita na COP28). Além disso, vemos um crescente reconhecimento do papel das florestas na mitigação climática global. E o mundo deve cobrar que o Brasil assuma papel mais ativo na proteção de suas florestas.

(ii) biodiversidade e contabilidade do capital natural: à medida que biodiversidade deixa de ser um tema secundário nas reuniões com investidores, ela deve se tornar um tema cada vez mais central nas discussões. A pressão regulatória também está aumentando, com destaque para a Convenção Sobre Diversidade Biológica (CDB) e a Força-Tarefa sobre Divulgação Financeira Relacionada à Natureza (TNFD), que visa criar guias para que empresas relatem riscos relacionados à biodiversidade.

(iii) mercados de carbono: após dois anos de paralisação nas negociações (durante a COP27 e a COP28), os países finalmente concordaram com Artigo 6.4 do Acordo de Paris na COP29. De forma geral, ele estabelece padrões para a qualidade do crédito de carbono, abrindo caminho para o tão aguardado sistema de comércio de carbono governado pela ONU. A expectativa é que demais definições sejam finalizadas na COP30.

A COP30 pode acabar não sendo tão forte (ou tão cheia) como pensamos? Sempre há essa chance. Ainda mais com os desafios de infraestrutura, de presença e de outros temas domésticos e globais desviando a atenção da conferência. Mas podemos desejar (e cobrar!) que ela atinja seu objetivo: encontrar soluções para a (crescente) ameaça das mudanças climáticas.

* Marcella Ungaretti é sócia e head do Research ESG da XP; Luiza Aguiar é analista sênior do Research ESG da XP.