
Quem acompanha a sopa de letrinhas europeia e a miríade de regras decorrentes do ambicioso European Green Deal vai ter um ano de fortes emoções, para dizer o mínimo.
O avanço dos partidos de extrema direita nas eleições para o Parlamento Europeu, e também em países como Alemanha e França, aponta para um rearranjo das forças políticas no continente – com possíveis mudanças em legislações e diretivas que afetam empresas do mundo todo, inclusive as brasileiras.
Tivemos recentemente uma grande pressão para suavizar o regulamento antidesmatamento na discussão de prorrogação de seu prazo de vigência. O Parlamento quase conseguiu incluir regras novas que fariam os europeus saírem ilesos da nova regra. No fim, passou apenas a prorrogação do prazo, mas o processo deu força para o movimento de reformas, e logo começou a discussão sobre a obrigação de reportes corporativos em sustentabilidade e regras de monitoramento de direitos humanos, duas das medidas com alcance muito além das fronteiras da UE.
Ainda não é possível afirmar que haverá mudanças, mas as companhias que fazem negócio com o bloco precisam ficar atentas às movimentações que prometem chacoalhar Bruxelas ao longo deste ano.
Aos que chegaram agora na conversa, uma breve recapitulação. Em 2019 a Comissão Europeia apresentou sua política de transição energética, com vistas a se tornar neutra em carbono em 2050. A meta intermediária para 2030 é de redução das emissões de gases de efeito estufa em 55% (em comparação aos níveis de 1990). O Green Deal não deixou de lado o aspecto social e humano inerente a essas questões, cravando o lema “nenhuma pessoa e nenhum lugar será deixado para trás”.
Desde então, diversas propostas legislativas foram aprovadas nas mais diversas áreas. Energia, transporte, construção civil, compras públicas, agricultura, clima, meio ambiente, indústria – a lista é grande. Foram aprovadas a taxonomia de investimentos, a CSRD (Corporate Sustainability Reporting Directive) e a CSDDD (Corporate Sustainability Due Diligence Directive). Estas duas últimas siglas são conhecidas no Brasil pelo impacto que terão nos negócios de diversas empresas, seja de maneira indireta, com a pressão de compradores europeus por documentos e informações, seja diretamente, com obrigações a serem cumpridas pelas companhias brasileiras.
A regra de taxonomia é um sistema de classificação adotado em junho de 2020 para definir quais atividades econômicas podem ser consideradas sustentáveis, com parâmetros uniformes para investimentos ESG, no intuito de alcançar maior transparência e combater o greenwashing.
A CSRD, por sua vez, foi adotada em dezembro de 2022 com obrigações de relatórios sustentáveis em uma dupla perspectiva. As empresas têm de analisar como suas atividades e cadeias de fornecimento podem ser influenciadas por fatores externos (mudanças climáticas, situações de vulnerabilidade social, por exemplo) e reportar sobre seus impactos – negativos e positivos – na sociedade e meio ambiente.
A CSRD pode ter implicações diretas para empresas brasileiras que tenham um faturamento anual líquido na União Europeia igual ou maior que €150 milhões, e tenham pelo menos uma sucursal com um volume de negócios de € 40 milhões. rande parte das empresas afetadas vai começar a trabalhar nos relatórios a serem publicados em 2026, com informações de 2025.
A CSDDD foi a última norma a ser aprovada, em abril de 2024, e exige que empresas realizem um amplo exercício de due diligence sobre os impactos ambientais e de direitos humanos de suas operações e de sua cadeia de valor, dentro e fora do território europeu. Empresas brasileiras também podem ser diretamente afetadas, desde que tenham um faturamento líquido maior ou igual a € 450 milhões, a partir de 2029, ou maior ou igual a € 1,5 bilhões, a partir de 2027.
Mudanças à vista?
Depois de anos de discussões e arranjos, temos uma nova e inesperada fase no horizonte. Em reação ao novo Parlamento Europeu, eleito no final de 2024, e ao aumento da pressão de partidos de extrema-direita no discurso político, as forças majoritárias encamparam palavras de ordem como “desburocratização” e “competitividade”.
Reconduzida à presidência da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen apresenta seu objetivo de cortar a burocracia em 25%, num exercício matemático curioso. Nasce a ideia do omnibus, uma ferramenta legislativa para discussão de diversas regras de forma integrada.
Ostensivamente, o objetivo é a desburocratização, isto é, a pretensão anunciada foi de harmonizar a aplicação formal das regras com o objetivo de facilitar a entrega de relatórios pelas empresas, sem comprometer o conteúdo material das regras. A taxonomia, a CSRD e a CSDDD foram logo incluídas nos discursos, mas são diversas as pressões políticas para que a revisão não pare por aí, esgarçando os limites iniciais de mera simplificação formal.
O Partido do Povo Europeu, partido de centro-direita ao qual a Presidente von der Leyen é filiada, exigiu reduções significativas na agenda ESG. Segundo o partido, é necessário evitar um peso excessivo para pequenas e médias empresas decorrente de um efeito cascata das novas regras, o que seria uma ameaça ao futuro econômico da União Europeia.
No último dia 20, o governo francês publicou uma carta pedindo a reconsideração de pelo menos 18 legislações. Para os franceses, a CSDDD deveria ser indefinidamente suspensa e a CSRD deveria ter uma drástica redução nos pontos a serem relatados. A porta-voz do governo francês, Sophie Primas, disse acreditar que a União Europeia percebeu que “foi um pouco longe demais”.
A Alemanha não deixou nem a ressaca da virada de ano ser curada e em 2 de janeiro de 2025 publicou uma carta endereçada à Comissão. O pedido é para prorrogar a CSRD por ao menos dois anos, além de aumentar o número de funcionários necessários para que a empresa seja parte do escopo.
O outro lado
Existem também forças contrárias à ideia do omnibus, ou ao menos ressaltando os seus riscos. As ONGs WWF e Frank Bold se posicionaram favoravelmente à CSRD e, juntamente com diversas outras instituições, pediram para que a UE parasse de “brincar de ping-pong com a legislação”.
Mas não foram apenas ONGs que criticaram este movimento político. Em carta enviada à Comissão, grandes empresas incluindo Nestlé, Unilever, Mars, DP World, NEI Investments, Ferrero, Primark e L’Occitane, manifestam apoio à regulamentação ESG, em especial à CSDDD, apontando o papel que têm de criar um ambiente de resiliência de longo prazo e uma vantagem competitiva para a indústria europeia. Falam o óbvio: empresas necessitam de consistência, clareza e confiabilidade nas regras – o que estaria em risco com a proposta de omnibus. Pedem que o foco dos trabalhos da Comissão seja na implementação prática das regras, com o amplo diálogo com os setores envolvidos para a publicação de guias que facilitem a compreensão e o cumprimento das regras.
Exigências diluídas
Caso as grandes forças políticas mantenham seus discursos, corremos o risco de ter essas regras abrandadas, a ponto de comprometer não só seus objetivos específicos, mas a própria trajetória transformadora do Green Deal. Fica a dúvida sobre o que mudou de 2019 para cá. Quais fundamentos técnicos estão sendo apresentados para refutar a necessidade de uma profunda transformação mundial para uma economia sustentável, sob pena de aumentarmos a cada ano a distância na implementação da meta do Acordo de Paris?
O discurso simplista, puxado pela extrema-direita, de que a crise econômica europeia está atrelada ao aumento das regulamentações ESG carece de embasamento. Tais regulamentos não foram aplicados a tempo suficiente para que tivéssemos resultados palpáveis decorrentes de suas obrigações. Ainda que se aponte para o custo da energia como um dos fatores para a retração da economia alemã, o tema em nada se relaciona com a CSDDD, a CSRD ou o regulamento de Taxonomia.
Mudanças significativas sem elementos concretos e técnicos, sem uma experiência minimamente duradoura que possa apontar para a necessidade de ajustes, parece dar um sinal de temeridade e insegurança. Evitar custos, sob o fantasma da competitividade imediatista e desenfreada, foi o que nos trouxe aos eventos climáticos extremos que vivemos cada vez mais frequentemente. Juntar-se ao coro de “drill, baby, drill” de Trump terá um custo ambiental, social e, principalmente, econômico, de proporções catastróficas, deixando tudo e todos, definitivamente, para trás.

![Crise na Europa antecipa lições para o mercado de carbono no Brasil Sistema brasileiro precisa considerar competitividade da indústria, segurança energética e inflação, diz Cristina Reis, a xerife do mercado de carbono brasileiro O mercado regulado de carbono brasileiro está sendo desenhado para funcionar também como uma ferramenta de segurança energética e de competitividade da indústria perante a choques externos – como o atual causado pelo conflito no Oriente Médio. “É esse equilíbrio que estamos tentando incorporar desde o início no Brasil. A experiência europeia tem nos ajudado. O desafio é incentivar a descarbonização ao mesmo tempo que mantemos nossa indústria competitiva e dinâmica economicamente”, diz Cristina Reis, à frente da Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono. Em entrevista ao Reset, ela avaliou as recentes mudanças propostas pela União Europeia para seu Sistema de Comércio de Emissões (ETS, na sigla em inglês), os impactos disso para o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) e os próximos passos da implementação do mercado no Brasil. Diante do aumento abrupto dos preços do petróleo e do gás, os reguladores europeus precisaram flexibilizar o seu sistema de comércio de emissões. A proposta é aumentar o volume de licenças no mercado em meio à disparada dos preços de energia no continente. “A nossa regulamentação está na fase inicial, de definição de escopo e de critérios de monitoramento, relato e verificação. Estamos olhando para essas experiências [como a flexibilização na Europa] para construir um sistema que já nasça equilibrado.” A visão é de que a flexibilização momentânea na UE foi necessária para evitar que o aumento dos custos de produção gerasse inflação para a população e minasse a competitividade da indústria local. Por outro, a avaliação de Reis é que, embora o mercado de carbono europeu tenha sido bem-sucedido na redução de emissões nas últimas décadas, ele também precisa se adaptar a choques externos. “Eles entenderam que estavam aumentando muito o sarrafo do sistema em momento difícil, aí voltaram a flexibilizar”, diz Reis. Ela se refere à próxima fase do ETS europeu, em que fabricantes de produtos muito intensivos em emissões, como aço e cimento, passariam a receber menos licenças de emissão gratuitas. Isso forçaria a indústria pesada a investir em tecnologias de descarbonização – a ideia é que a transição energética faça mais sentido econômico que compensação via compra de carbono no mercado. Lições para o Brasil A precificação do carbono é uma política difícil de ser implementada em democracias, pois impõe perdas concentradas a setores organizados, enquanto gera benefícios que são mais difusos na sociedade. Utilizar as receitas geradas para construir apoio e viabilizar a transição se torna, assim, uma estratégia. “Já há várias jurisdições, como Washington e Califórnia, que chamam seus sistemas de cap and investment, não mais de cap and trade”, observa a secretária. Segundo ela, o sistema deve funcionar como instrumento de política industrial ao estimular investimentos e modernização produtiva. A legislação brasileira estabeleceu que 75% das receitas do SBCE serão destinadas ao Fundo Clima, gerido pelo BNDES. O objetivo é garantir as condições necessárias para que a indústria nacional invista em tecnologias de descarbonização, reformulando e inovando seus processos produtivos para que se tornem mais limpos e eficientes. Na UE, os países destinam apenas cerca de 5% das receitas para a descarbonização da própria indústria. O plano de alocação de recursos do Fundo Clima aprovado para este ano já prevê uma linha de crédito dedicada ao SBCE. O montante exato que será destinado a ela e quais setores específicos serão beneficiados ainda serão definidos. É uma sinalização ao mercado de que as exigências ambientais serão acompanhadas de suporte financeiro. “É para mostrar para a indústria que a intenção é um processo coordenado de descarbonização que confira competitividade”, diz Reis. A definição de quais setores que serão obrigados a relatar emissões será publicada em junho, por meio de um normativo que estabelecerá o escopo do SBCE e integrará o Plano Nacional de Relato de Emissões. O governo vem estruturando o plano e realizando oficinas de Monitoramento, Relato e Verificação (MRV) em diálogo com as indústrias. Com base no cronograma desses encontros setoriais, as atividades previstas para inclusão são: papel e celulose, cimento e alumínio; química, vidro e cerâmica; ferro e aço, óleo e gás; aviação civil; e mineração. “Essas escolhas precisam ser estratégicas no sentido de examinar a competitividade da nossa indústria e incentivá-la a descarbonizar, mas ao mesmo tempo de não onerar a nossa dinâmica econômica”, diz Reis. O SBCE foi desenhado em etapas para dar previsibilidade e reduzir riscos na economia. “Apertar demais a regulamentação logo no início encareceria drasticamente os custos operacionais das empresas”, afirma a secretária. A exigência do relato de emissões antecede as cobranças diretas e é uma etapa crucial da implementação do mercado de carbono. O governo utilizará os planos de monitoramento (previstos para o período de 2027 a 2028) para reunir informações sobre as empresas e, a partir desses dados, elaborar o Plano Nacional de Alocação, que definirá o teto de emissões e a distribuição de licenças no futuro. No SBCE, as permissões de emissão (allowance) serão chamadas de ‘cotas’. “A palavra ‘permissão’ na lei tinha um contexto negativo em português, como se tivesse liberado para poluir. Cota não, dá a ideia que tem um limite para a emissão”, explica Reis. Equilíbrio de forças A abordagem do governo na construção e regulação do mercado de carbono brasileiro busca um “equilíbrio de forças” em dois contextos. O primeiro é na dinâmica entre os diferentes atores da sociedade. Durante a elaboração dos normativos, que envolvem conversas setoriais e consultas públicas, a regulação não pode atender apenas ao "auto-interesse" da indústria, diz Reis. Segundo ela, o processo envolve todas as partes interessadas, de modo que "a sociedade puxe para um lado, a indústria puxa para o outro", gerando assim um equilíbrio de forças prático na definição das regras e limites do mercado de carbono. O segundo é a conciliação entre os eixos econômico, social e climático do mercado de carbono. “Eu nos posiciono em um equilíbrio de forças. A gente não está protegendo o meio ambiente a qualquer custo ou, do outro lado, fazendo medidas econômicas financeiras que não têm efetivo lastro ambiental e climático.” Ela cita como exemplo mais recente as medidas provisórias (MPs 1340 e 1349) que o governo anunciou para responder aos reflexos do conflito no Oriente Médio – elas são focadas no setor elétrico para reduzir a pressão tarifária no curto prazo. “Buscou-se assegurar preço, garantir abastecimento e evitar aumento da inflação.” Cristina Reis, da Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono Crise na Europa antecipa lições para o mercado de carbono no Brasil Sistema brasileiro precisa considerar competitividade da indústria, segurança energética e inflação, diz Cristina Reis, a xerife do mercado de carbono brasileiro O mercado regulado de carbono brasileiro está sendo desenhado para funcionar também como uma ferramenta de segurança energética e de competitividade da indústria perante a choques externos – como o atual causado pelo conflito no Oriente Médio. “É esse equilíbrio que estamos tentando incorporar desde o início no Brasil. A experiência europeia tem nos ajudado. O desafio é incentivar a descarbonização ao mesmo tempo que mantemos nossa indústria competitiva e dinâmica economicamente”, diz Cristina Reis, à frente da Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono. Em entrevista ao Reset, ela avaliou as recentes mudanças propostas pela União Europeia para seu Sistema de Comércio de Emissões (ETS, na sigla em inglês), os impactos disso para o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) e os próximos passos da implementação do mercado no Brasil. Diante do aumento abrupto dos preços do petróleo e do gás, os reguladores europeus precisaram flexibilizar o seu sistema de comércio de emissões. A proposta é aumentar o volume de licenças no mercado em meio à disparada dos preços de energia no continente. “A nossa regulamentação está na fase inicial, de definição de escopo e de critérios de monitoramento, relato e verificação. Estamos olhando para essas experiências [como a flexibilização na Europa] para construir um sistema que já nasça equilibrado.” A visão é de que a flexibilização momentânea na UE foi necessária para evitar que o aumento dos custos de produção gerasse inflação para a população e minasse a competitividade da indústria local. Por outro, a avaliação de Reis é que, embora o mercado de carbono europeu tenha sido bem-sucedido na redução de emissões nas últimas décadas, ele também precisa se adaptar a choques externos. “Eles entenderam que estavam aumentando muito o sarrafo do sistema em momento difícil, aí voltaram a flexibilizar”, diz Reis. Ela se refere à próxima fase do ETS europeu, em que fabricantes de produtos muito intensivos em emissões, como aço e cimento, passariam a receber menos licenças de emissão gratuitas. Isso forçaria a indústria pesada a investir em tecnologias de descarbonização – a ideia é que a transição energética faça mais sentido econômico que compensação via compra de carbono no mercado. Lições para o Brasil A precificação do carbono é uma política difícil de ser implementada em democracias, pois impõe perdas concentradas a setores organizados, enquanto gera benefícios que são mais difusos na sociedade. Utilizar as receitas geradas para construir apoio e viabilizar a transição se torna, assim, uma estratégia. “Já há várias jurisdições, como Washington e Califórnia, que chamam seus sistemas de cap and investment, não mais de cap and trade”, observa a secretária. Segundo ela, o sistema deve funcionar como instrumento de política industrial ao estimular investimentos e modernização produtiva. A legislação brasileira estabeleceu que 75% das receitas do SBCE serão destinadas ao Fundo Clima, gerido pelo BNDES. O objetivo é garantir as condições necessárias para que a indústria nacional invista em tecnologias de descarbonização, reformulando e inovando seus processos produtivos para que se tornem mais limpos e eficientes. Na UE, os países destinam apenas cerca de 5% das receitas para a descarbonização da própria indústria. O plano de alocação de recursos do Fundo Clima aprovado para este ano já prevê uma linha de crédito dedicada ao SBCE. O montante exato que será destinado a ela e quais setores específicos serão beneficiados ainda serão definidos. É uma sinalização ao mercado de que as exigências ambientais serão acompanhadas de suporte financeiro. “É para mostrar para a indústria que a intenção é um processo coordenado de descarbonização que confira competitividade”, diz Reis. A definição de quais setores que serão obrigados a relatar emissões será publicada em junho, por meio de um normativo que estabelecerá o escopo do SBCE e integrará o Plano Nacional de Relato de Emissões. O governo vem estruturando o plano e realizando oficinas de Monitoramento, Relato e Verificação (MRV) em diálogo com as indústrias. Com base no cronograma desses encontros setoriais, as atividades previstas para inclusão são: papel e celulose, cimento e alumínio; química, vidro e cerâmica; ferro e aço, óleo e gás; aviação civil; e mineração. “Essas escolhas precisam ser estratégicas no sentido de examinar a competitividade da nossa indústria e incentivá-la a descarbonizar, mas ao mesmo tempo de não onerar a nossa dinâmica econômica”, diz Reis. O SBCE foi desenhado em etapas para dar previsibilidade e reduzir riscos na economia. “Apertar demais a regulamentação logo no início encareceria drasticamente os custos operacionais das empresas”, afirma a secretária. A exigência do relato de emissões antecede as cobranças diretas e é uma etapa crucial da implementação do mercado de carbono. O governo utilizará os planos de monitoramento (previstos para o período de 2027 a 2028) para reunir informações sobre as empresas e, a partir desses dados, elaborar o Plano Nacional de Alocação, que definirá o teto de emissões e a distribuição de licenças no futuro. No SBCE, as permissões de emissão (allowance) serão chamadas de ‘cotas’. “A palavra ‘permissão’ na lei tinha um contexto negativo em português, como se tivesse liberado para poluir. Cota não, dá a ideia que tem um limite para a emissão”, explica Reis. Equilíbrio de forças A abordagem do governo na construção e regulação do mercado de carbono brasileiro busca um “equilíbrio de forças” em dois contextos. O primeiro é na dinâmica entre os diferentes atores da sociedade. Durante a elaboração dos normativos, que envolvem conversas setoriais e consultas públicas, a regulação não pode atender apenas ao "auto-interesse" da indústria, diz Reis. Segundo ela, o processo envolve todas as partes interessadas, de modo que "a sociedade puxe para um lado, a indústria puxa para o outro", gerando assim um equilíbrio de forças prático na definição das regras e limites do mercado de carbono. O segundo é a conciliação entre os eixos econômico, social e climático do mercado de carbono. “Eu nos posiciono em um equilíbrio de forças. A gente não está protegendo o meio ambiente a qualquer custo ou, do outro lado, fazendo medidas econômicas financeiras que não têm efetivo lastro ambiental e climático.” Ela cita como exemplo mais recente as medidas provisórias (MPs 1340 e 1349) que o governo anunciou para responder aos reflexos do conflito no Oriente Médio – elas são focadas no setor elétrico para reduzir a pressão tarifária no curto prazo. “Buscou-se assegurar preço, garantir abastecimento e evitar aumento da inflação.” Cristina Reis, da Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono](https://uploads.capitalreset.com/2026/04/Abril_03-450x253.jpg)



