
A mineradora Vale prevê ter um desembolso de caixa de R$ 43 bilhões nos próximos cinco anos com compensações financeiras relacionadas aos desastres de Mariana e Brumadinho, em Minas Gerais, e com a descaracterização de barragens de rejeitos.
A estimativa foi divulgada pela empresa durante evento para investidores em Londres nesta terça-feira (2). Logo no início da apresentação, o CEO Gustavo Pimenta (na foto) apresentou dados sobre acidentes e o risco das barragens ainda existentes, em linha com o trabalho da mineradora nos últimos anos para recuperar a confiança de investidores.
Os cálculos apontam uma diminuição gradual com esses gastos ano após ano. Em 2025, eles somaram R$ 22,3 bilhões. Eles incluem provisões relacionadas ao processo da Justiça do Reino Unido, no qual a BHP foi condenada pelo rompimento da barragem da Samarco em 2015, no município de Mariana. A Samarco é controlada pela Vale e pela BHP por meio de uma joint venture.
Em 2024, as duas empresas firmaram um acordo de divisão de responsabilidades nos processos que correm fora do Brasil.
“Os riscos [financeiros] relacionados ao processo no Reino Unido são residuais em relação ao processo do Brasil”, disse Marcelo Bacci, vice-presidente executivo de finanças e relações com investidores, em resposta a um analista. Ele se refere ao acordo de R$ 170 bilhões que Vale e BHP fecharam com autoridades brasileiras para indenização e reparação dos danos.
Segundo Bacci, os gastos com o processo inglês não devem ultrapassar os R$ 2,6 bilhões. O processo na justiça britânica avança agora para a fase em que serão definidos os valores indenizatórios – os reclamantes pedem R$ 240 bilhões.
Todos os números foram apresentados em dólares considerando uma cotação de câmbio de R$ 5,3186 – usada pela reportagem para fazer as conversões dos valores. A empresa informou que tem um programa de hedge em reais para compensar os riscos cambiais.
Considerado o maior desastre ambiental da história do Brasil, o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, ocorreu em 5 de novembro de 2015 e matou 19 pessoas, além de levar entre 40 milhões a 50 milhões de toneladas de rejeitos tóxicos para o rio Doce, importante curso d’água da região Sudeste.
“Nosso desejo é de que todas as pessoas e organizações elegíveis estivessem no acordo firmado no Brasil, pois acreditamos ser a jurisdição correta para tratar do tema e iniciar pagamentos imediatos. No Reino Unido esse processo ainda deve se estender por mais três ou quatro anos”, disse Bacci.
Barragens e segurança
A Vale afirma que, atualmente, não possui mais nenhuma barragem de nível 3, o grau de maior risco de falhas estruturais e rompimento. Durante a apresentação para os investidores, isso foi descrito como uma das principais entregas da empresa em 2025.
O programa de descaracterização de barragens contava com 30 plantas. Entre 2019 e este ano, a empresa eliminou 19. Outras três barragens devem ser descaracterizadas até 2027. As demais, a partir de 2028.
No PPT da apresentação, o primeiro slide de conteúdo trouxe informações sobre segurança: o índice que mede a frequência de lesões e doenças ocupacionais (TRIFR, na sigla em inglês) caiu pela metade na mineradora em 2024 em relação a 2020.
Usado em indústrias de alto risco, como mineração, petróleo e construção pesada, esse é um indicador de segurança ocupacional. Ele mede quantos acidentes registráveis acontecem para cada 1 milhão de horas trabalhadas.
A Vale aparece com 1,1 no índice, enquanto outras companhias do setor, cujos nomes não foram revelados na apresentação, aparecem com índices entre 1,6 e 4,8.
Minerais da transição
Dois metais produzidos pela Vale são importantes para a transição energética: cobre e níquel. Neste ano, a produção estimada de cobre da empresa é de 370 mil toneladas – acima dos 345 mil informados no Vale Day do ano passado.
A projeção é que esse volume anual suba para a faixa de 420 mil a 500 mil toneladas em 2030 e chegue a 700 mil toneladas até 2035, sem alteração do previamente anunciado.
Esses metais ficam sob a operação da Vale Base Metals, subsidiária de minerais não ferrosos da empresa. Ela assinou recentemente um acordo com a canadense Glencore. O acordo prevê a avaliação de potencial de exploração de cobre em propriedades adjacentes à Bacia de Sudbury.
Shaun Usmar, presidente da subsidiária, não descartou a possibilidade do acordo evoluir para uma uma joint venture no futuro, em uma união dos ativos da Vale no Canadá com a Glencore. “Não vejo isso em um futuro próximo, mas há muitas oportunidades”, disse.
Sobre o IPO da Vale Base Metals, Usmar afirmou que a possibilidade não foi descartada, mas que “há muito potencial a ser desbloqueado antes de ir para o mercado”.
Corte de emissões
A companhia apresentou como está o cumprimento de suas metas de corte de emissões de gases de efeito estufa.
Nos escopos 1 e 2, a meta da Vale é cortar em 33% as emissões até 2030. A empresa informou que cumpriu 81% do objetivo. Esses escopos se referem, respectivamente, às emissões diretas das operações e as relacionadas à compra de energia.
No escopo 3, a meta é reduzir as emissões em 15% até 2035. A empresa afirma ter alcançado 88%. O escopo 3 considera toda a cadeia de valor das empresas da porta para fora, incluindo logística e terceirizadas, por exemplo.