Mais 15 empresas devem fazer adesão voluntária a reportes de sustentabilidade 

As últimas semanas de 2025 não são apenas uma contagem regressiva para o fim do ano. Elas marcam também o fim do período estabelecido pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários) para a adesão voluntária das companhias abertas aos novos reportes de sustentabilidade que seguem as normas IFRS S1 e S2.

O órgão regulador divulgou os resultados de uma pesquisa feita no primeiro semestre com os principais afetados pelas novas normas. Além de Vale e Renner, outras 15 empresas disseram que pretendem se comprometer de forma voluntária.

O período obrigatório começa apenas no exercício de 2026, com divulgação no ano seguinte, mas o órgão regulador vem tentando incentivar a adesão antecipada. Até agora, porém, apenas quatro das cerca de 700 empresas de capital aberto decidiram pela divulgação no período voluntário. 

As pioneiras foram Renner e Vale, que apresentaram os primeiros dados neste ano, referentes a 2024. Natura e Irani Papel e Embalagens são as outras duas companhias que comunicaram recentemente a adesão

Apesar do número baixo, a expectativa da CVM é de que mais empresas comuniquem a decisão até 31 de dezembro. 

Novas adesões são esperadas também pela empresa de auditoria EY. “Temos clientes com o comunicado pronto [para divulgar a decisão ao mercado], mas estão em meio à decisão final, avaliando se está tudo certo”, diz Shirley Silva, sócia-líder de asseguração de sustentabilidade da EY Brasil, que cerca de 20 contratos fechados para prestar serviços de adequação à S1 e à S2.

Desde que decidiu alinhar o mercado brasileiro à iniciativa global da IFRS Foundation, a CVM prega que o movimento é fundamental para o amadurecimento técnico dos reportes. O país é um dos pioneiros na adoção. No mundo, 36 jurisdições estão alinhadas à política até agora. Com mais dados em mãos, a perspectiva é de que no médio prazo investidores façam ajustes em suas metodologias de valuation, preço das ações e no custo do capital.

A CVM não divulgou os nomes das 15 empresas que sinalizaram a adesão voluntária na pesquisa, mas publicou os setores, receita e número de funcionários – veja detalhes na tabela. Somadas, elas têm R$ 32 bilhões em faturamento e 90 mil funcionários. 

A pesquisa contou com a participação de 159 companhias, das quais 44 fazem parte do Ibovespa, principal índice acionário da bolsa de valores brasileira. Também foram ouvidas consultorias, auditorias e associações, em um total de 291 respondentes. 

Empresas com intenção de adotar as normas S1 e S2 de forma voluntária até 31 de dezembro*
SetorReceita Líquida Anual (em milhões de R$)Funcionários
Empresa 1Comunicação e informáticaR$ 1,33.846
Empresa 2Empresas de administração e participação – Sem setor principalR$ 2,211.000
Empresa 3Comércio (atacado e varejo)R$ 12,025.630
Empresa 4Química, petroquímica, combustíveis e borrachaR$ 32,2115
Empresa 5Construção civil, materiais de construção e decoraçãoR$ 197,1458
Empresa 6Energia elétricaR$ 352,6136
Empresa 7Máquinas, equipamentos, veículos e peçasR$ 495,51.300
Empresa 8Construção civil, materiais de construção e decoraçãoR$ 500,03.000
Empresa 9Comércio (atacado e varejo)R$ 1.3566.067
Empresa 10Comércio (atacado e varejo)R$ 1.5805.634
Empresa 11Empresas de administração e participação – Máquinas, equipamentos, veículos e peçasR$ 2.3911.009
Empresa 12Têxtil e vestuárioR$ 2.43417.089
Empresa 13Comunicação e informáticaR$ 4.50012.278
Empresa 14Intermediação financeiraR$ 8.9002.760
Empresa 15BancosR$ 9.3452.036
TOTALR$ 32,1 bilhões92.358
Fonte: CVM. *Lista exclui Renner e Vale

Dificuldades de adoção

Com os novos reportes, as empresas vão precisar responder, por exemplo, qual é o impacto das temperaturas em alta e da mudança no volume de chuvas sobre o seu patrimônio (ativos e passivos).  Medidas regulatórias como o futuro mercado regulado de carbono são outro exemplo do que entrará na conta de muitos setores.

No primeiro relatório, a Vale calculou que a precificação de carbono nos mercados em que atua poderá custar até R$ 19 bilhões para a empresa.  No caso da Renner, mudanças no comportamento do consumidor – com menos vendas de casacos devido a ondas de calor — são um dos riscos mapeados.

Esse exercício feito pelas duas empresas é o cerne da nova regulação da IFRS S1 e S2.

As empresas ouvidas na pesquisa da CVM apresentaram as razões que dificultam a adesão voluntária até 31 de dezembro:

• Complexidade das normas (60%); 
• Custos elevados relacionados à contratação de consultorias (50%); 
• Estratégia de aguardar a obrigatoriedade, evitando retrabalho (45%).

A CVM também perguntou sobre as dificuldades na adoção das normas para o período obrigatório, incluindo questões sobre o entendimento técnico. Nem todas as empresas, por exemplo, fizeram o exercício de identificar os seus riscos e oportunidades relacionados à sustentabilidade, assim como quantificá-los financeiramente – a chamada materialidade financeira. 

Os desafios chamados de “alta relevância” na adoção geral mencionados na pesquisa são:

• Prazo para adaptação (75%);
• Ausência de benchmarks setoriais (66%);
• Custos financeiros envolvidos (65%);
• Aumento da complexidade regulatória no Brasil e da carga administrativa (61%);
• Matriz de materialidade financeira: mensuração quantitativa (58%);
• Sistemas de informação e plataformas confiáveis (52%);

“Existe um diagnóstico que, em parte, não foi feito. Nas normas S1, que tratam da governança, exigem-se informações sobre como os riscos são mapeados. Qual é a frequência? Quem acompanha? As informações ‘sobem’ para o Conselho [de Administração]? Se o risco se materializar, qual é a perda? Muita gente está um passo atrás. A norma trata de disclosure, de divulgar o que é feito. Mas se não faz, não significa que o risco não exista”, diz Fernando Múrcia, professor da Fipecafi, ligada à FEA-USP. 

As empresas que já iniciaram a adequação estão colhendo frutos, na avaliação da EY, mesmo sem a intenção de aderir ao período voluntário. Há repercussões sobre a melhoria da governança e sobre a tomada de decisão para alocação de capital. 

Preparação

Apesar das dificuldades, o trabalho está em progresso: 70% das 159 companhias ouvidas estão em alguma fase de preparação (planejamento, execução inicial ou avançada), o que foi elogiado pela CVM na pesquisa. 

“Quem saiu na frente são empresas que conseguiram detectar que esse exercício gera valor. Elas já devem ter passado por uma requisição de investidor sobre algum dado de clima. Se for exportadora para a União Europeia, talvez tenha sido requisitada sobre inventário de emissões. São empresas que tiveram gatilhos relevantes”, diz Ana Luci Grizzi, conselheira independente, consultora sênior em clima e natureza e colunista do Reset

Um denominador comum entre as quatro pioneiras é a operação mais exposta ao clima e à natureza, avalia Silva, da EY. Vale, por exemplo, depende diretamente da oferta de minerais e a Natura, de biodiversidade. Ela chama a atenção para a ausência, até agora, dos setores bancários e de petróleo e gás na adesão voluntária.

Flexibilizações?

Devido à complexidade do trabalho à vista, algumas empresas têm pedido à CVM a postergação do prazo de adoção obrigatória, segundo pessoas a par do assunto. Os documentos serão publicados só em 2027, mas a contabilidade precisa trabalhar sobre o exercício de 2026, que começa em poucas semanas.

A data de adoção obrigatória foi o ponto mais mencionado pelas companhias, liderando a lista de desafios relevantes. Nos bastidores, a CVM diz que não haverá novas datas. 

A reportagem solicitou entrevista à CVM, que preferiu se pronunciar oficialmente apenas pela nota já publicada no seu portal, em que destaca que o prazo para o período voluntário já foi flexibilizado uma vez. Antes, ele se encerraria em 31 de maio. 

Uma flexibilização aconteceu para empresas de menor porte, por meio do lançamento do programa Fácil (Facilitação do Acesso a Capital e de Incentivos a Listagens), que tem regras simplificadas e proporcionais. Ele dispensa empresas com faturamento bruto abaixo de R$ 500 milhões ao ano da obrigatoriedade de reporte de sustentabilidade. 

Essa decisão, no entanto, precisa ser formalizada pela CVM na resolução 193, que trata dos reportes de sustentabilidade. A autarquia, porém, está sem comando devido à vacância da presidência. 

Roberto Gonzales, especialista em ESG e membro da associação de analistas do mercado de capitais (Apimec), vê qualquer flexibilização como um “desserviço”. Ele argumenta que a primeira decisão da CVM sobre o tema já tem dois anos e que a IFRS Foundation deverá lançar mais normas no futuro, avançando com a pauta.