Tamara Klink: Em palestras nas empresas, executivos dizem que filhos pedem sustentabilidade

Belém – A navegadora Tamara Klink atracou o veleiro em setembro depois de cruzar do Atlântico ao Pacífico pela temida Passagem do Noroeste. Em quase dois meses, ela viu auroras boreais, teve o barco invadido por um urso e testemunhou de perto os sinais das mudanças do clima. Essas histórias, segundo ela, servem para impulsionar a ação. 

“É importante ter informação, mas também emoção para tomar decisões que garantam a vida”, disse ao Reset, após palestrar para uma platéia cheia de executivos na C.A.S.E, casa montada em Belém por Itaúsa, Itaú Unibanco, Natura, Bradesco, Vale, Marcopolo e Nestlé para evidenciar soluções climáticas brasileiras com potencial de serem escaladas. Uma das vozes mais populares da nova geração sobre clima, ela atrai crianças, adolescentes e adultos por onde passa.

A rota foi concluída pela primeira vez há 120 anos por Roald Amundsen, em uma viagem que levou quase três anos, em um barco de 21 metros, com outros seis tripulantes. Tamara percorreu o mesmo trajeto sozinha em uma viagem de 45 dias. Isso aconteceu por conta do aquecimento global, que transformou uma rota antes congelada em um trajeto navegável.

Não é a primeira vez que ela entra para a história. No ano passado, tornou-se a primeira mulher que se tem registro a passar um inverno sozinha no mar congelado do Ártico. Na expedição, caiu na água e quase morreu. “Tive três minutos para me virar e sair dali”, conta. É a imagem que usa para falar da urgência climática: “Estamos nesses três últimos minutos antes de o planeta atingir seu limite.”

Seu talento em traduzir temas complexos é cobiçado por empresas e bancos. Na travessia da Passagem do Noroeste, ela teve o patrocínio do Itaú Unibanco para gravar um documentário que registra a viagem e iniciativas do banco relacionadas às mudanças climáticas. “Precisávamos de alguém com carisma e capaz de falar uma linguagem acessível, para que a mensagem chegasse a todos”, afirma Luciana Nicola, diretora de relações institucionais e sustentabilidade do Itaú. 

Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

A bordo no Sardinha 2, Tamara Klink encontrou menos gelo do que esperava no Oceano Ártico

Como você se enxerga sendo uma voz influente para a juventude sobre o tema da mudança do clima?

É um privilégio ser ouvida e uma responsabilidade muito grande, não só de dividir o que eu vivo, mas também a voz de cientistas e pessoas locais, que sabem de clima muito mais do que eu, mas não têm o mesmo espaço para serem ouvidos ou considerados. Pelas minhas histórias, eu posso tocar na emoção das pessoas. É muito importante a gente ter informações, mas também a emoção para fazer as decisões para que a vida possa existir.

E o Ártico é o limite planetário que eu conheço melhor. Eu vi, dia após dia, como o aquecimento global está derretendo o mar congelado e a dimensão disso. Imagina que o oceano é como um asfalto, ele é escuro e absorve calor. Quando todo o gelo estiver derretido, não vamos ter o ar-condicionado do planeta. 

Mas não precisamos ir até lá para ver esses limites planetários. Se a gente olhar a temperatura na nossa cidade, a gente já sente essas mudanças. Todo mundo viu o que aconteceu no Rio Grande do Sul. 

Claro que isso tem um impacto muito grande na economia, mas a gente não pode viver em um mundo teórico, como os economistas muitas vezes gostam. É importante incluir na equação quais são os limites do planeta. Só pode existir economia se a gente existir. A gente está naqueles três minutos que eu tive para não morrer quando caí na água. 

O medo pode deixar as pessoas inertes?

É normal ter medo porque estamos diante de um cenário novo e tudo que é novo dá medo. O momento que a gente vive demanda decisões muito corajosas e audaciosas comparadas com as que a gente tinha que tomar até então. A escala planetária é muito maior que a nossa. 

Apesar do medo, custa muito caro para o nosso presente e para o nosso futuro não agir. Já sabemos que as ações que fizermos hoje pelo clima, vão custar menos do que as ações tomadas daqui cinco ou dez anos. 

O medo é um tema recorrente nos seus livros e nas suas falas. Em que momento você sente medo?

Eu sinto medo o tempo todo. Mas eu tenho mais medo de perder o medo, de não ver o risco. No imaginário coletivo, o que mais assusta é a possibilidade de tempestades e do barco virar, mas na realidade, a maioria dos acidentes pode acontecer em um dia de sol e céu azul. A tempestade faz a gente lembrar de colocar o colete e se amarrar, mas tem vários exemplos de navegadores famosos que caíram do barco fazendo xixi num dia bom, de mar calmo. 

Esse é um pouco o perigo do momento que estamos vivendo na terra. Já temos muitas informações do quão perigoso é o que está por vir. Já temos impacto nas safras, por exemplo, mas por enquanto não nos damos conta do quão grave isso pode ser. 

Onde você gostaria de ver mais a juventude?

As crianças e os adolescentes já sofrem com as mudanças do clima e vão sofrer mais. Elas vão passar mais tempo nesse planeta. Mas são as pessoas com menos poder na decisão. Acho que seria importante a juventude ser ouvida em todas as negociações e discussões. 

Dou muitas palestras em empresas e, quando falo de clima nos briefings, os líderes muitas vezes falam dos filhos. Dependendo do setor, falam que os filhos têm vergonha do que os pais fazem, que se sentem cobrados ou que foram pressionados por eles a tomar decisões de sustentabilidade. Não vou citar as empresas, mas você pode imaginar quais setores são. Acho que as crianças já são esses vetores de consciência. São vetores de coragem. 

Durante a sua travessia, o que você ouviu das comunidades por onde passou sobre mudanças climáticas? 

Os pescadores, que costumavam passar mais da metade do ano pescando em cima do mar congelado, agora passam mais da metade do ano pescando em água líquida. Os peixes mudaram. Muitos peixes de águas quentes migraram mais para o norte, como os bacalhaus na Groenlândia. Aves, como as águias, mudaram também mais para o norte. As baleias que costumavam ir embora da Baía de Disko [na Groenlândia], em outubro, estão indo em dezembro. 

Muitas espécies não vão resistir a essas mudanças, vão desaparecer. Outras vão se dar bem, vão perder predadores e chegar em áreas onde antes elas não chegavam. Mas nós, humanos, não podemos nos permitir fazer migrações do Ártico para o Antártico todos os anos. A gente não pode se permitir abandonar totalmente as nossas cidades. As nossas terras não estão prontas para fazer adaptações tão drásticas quanto essas que os animais podem fazer. Nossa arquitetura, nossa economia, nossa agricultura é pouco resiliente a mudanças climáticas, não conseguimos nos adaptar tanto quanto algumas espécies. 

Quais são suas impressões da COP30?

Sinto que o mundo estaria muito pior se não fossem as últimas COPs. As mudanças climáticas estão avançando mais rápido que a nossa capacidade de ação, mas já tivemos avanços muito significativos. Estou gostando de ver as empresas na COP30, de certa forma sensibilizando mais. Estamos num momento que ficou mais fácil de perceber quem faz greenwashing e quem está fazendo de verdade. E o greenwashing vai custar mais caro.

É uma oportunidade valiosa para mostrar os talentos do Brasil, um deles é da diplomacia, que está liderando muito bem e sendo muito elogiada por outras delegações. Mas acho que podemos ser mais ambiciosos, bem mais do que já estamos sendo até então. Também é uma oportunidade dos brasileiros olharem para Belém. 

Não só os brasileiros, mas o mundo…

Sim.