
As gestoras Régia Capital e Ore Investments iniciaram oficialmente a captação de recursos do seu fundo de private equity de minerais críticos. A primeira rodada da oferta é focada em investidores profissionais locais.
Para que o fundo comece a fazer aportes, o seu patrimônio mínimo precisa ser de R$ 400 milhões – o objetivo é levantar R$ 1 bilhão no total. Mas a captação não parte do zero: agora é preciso levantar R$ 100 milhões para compor os R$ 300 milhões já comprometidos por Vale, BNDESPar e BB Asset.
A mineradora e o braço de investimento em participações do BNDES são investidores âncora do fundo. Cada um pode colocar entre R$ 100 milhões e R$ 250 milhões – o valor depende do volume captado pelas gestoras.
“Depois vamos lançar uma segunda tranche mais voltada para o investidor externo”, diz Márcio Correia, diretor de investimentos da Régia.
Segundo ele, conta a favor a corrida mundial por esses minerais essenciais para a transição energética. Contra, os juros elevados no país (Selic em torno de 15%), que desestimulam a tomada de risco por parte dos investidores.
O retorno que o FIP vai buscar para o cotista é alto: IPCA + 25% ao ano.
O veículo foi estruturado com subclasses para atrair diferentes tipos de investidores. Entre elas estão a classe dos âncoras (BNDESPar e Vale); a dos investidores estratégicos, que podem ter acesso a compra antecipada dos produtos das empresas investidas (os chamados contratos de offtake); e a do investidor profissional.
A captação já realizada pela BB Asset foi avaliada como um termômetro da demanda pela tese. A gestora do Banco do Brasil é sócia da JGP na joint venture que deu origem à Régia e atua como distribuidora parceira. Ela estruturou um fundo que investe em cotas (FIC) do fundo de minerais críticos e captou os R$ 100 milhões em quatro meses.
Primeiro investimento
O fundo já tem uma candidata para o primeiro investimento: a mineradora de terras raras Viridis.
“A Virids é uma das primeiras da fila no nosso pipeline. Como a estruturação do FIP demorou mais do que o planejado, fizemos o investimento diretamente pelas gestoras-mães, Régia e Ore”, diz Correia.
Pelo acordo, as gestoras realizaram dois investimentos e têm direito a fazer outros no valor de até US$ 30 milhões. O plano é que os próximos sejam realizados via o FIP.
O fundo pode investir tanto em minas que estejam em operação quanto em fase de desenvolvimento e implementação. Projetos de pesquisa geológica também são elegíveis.
Os gestores têm mandato para investir em empresas donas de direitos de exploração de minerais como cobalto, cobre, lítio, níquel e terras raras, usados na produção de baterias como as que equipam os carros elétricos.
Outro objetivo será a exploração de fosfato e potássio, usados como adubo, e também em remineralizadores, rochas trituradas que podem ser usadas como fertilizantes. Esse “pó de rocha” aumenta o sequestro de carbono pela agricultura, com o potencial de geração de créditos de carbono.
Regulação
O sucesso do Brasil no setor de minerais estratégico depende criticamente de não errar na regulação, avalia o diretor da Régia. A Câmara dos Deputados aprovou no início do mês o marco legal do setor, em proposta que agora será analisada pelo Senado.
“Se a gente errar na regulação e criar imprevisibilidade, vai afugentar o capital. Se a gente acertar na regulação, vai atrair muito capital”, disse Correia.
Ele defende que o Brasil não deve tentar replicar o modelo da China (por falta de escala e custo de capital), mas sim buscar ser uma “Austrália bem-feita”, focando em refino, segurança jurídica e aproveitamento de sua geologia privilegiada.
Durante apresentação no evento Brazil Climate Investment Week, que ocorreu nesta terça-feira (19) em São Paulo, ele comparou os casos da Bolívia e do Zimbábue para ilustrar os riscos de modelos regulatórios inadequados.
Apesar de possuir 15% das reservas mundiais de lítio, a Bolívia produz 0% devido à criação de um monopólio estatal e exigências de transferência de tecnologia que afastaram investidores. Já o Zimbábue, com menos de 1% das reservas mundiais, produz 10% do lítio global. O país aproveitou uma lacuna geopolítica (onde Canadá e Austrália restringiram investimentos chineses) para abrir suas portas à China e acelerar sua produção.
O Brasil possui cerca de 1% das reservas e produz 4% do lítio comercializado no mundo. Correia avalia que o país foi bem-sucedido porque optou pela desregulamentação, alterando leis antigas da década de 1960 (que vinculavam o lítio ao controle do urânio) para permitir a exportação, o que impulsionou o desenvolvimento do “Vale do Lítio” em Minas Gerais.





