
Na corrida pela descarbonização da indústria pesada, os holofotes costumam apontar para grandes cifras e megaprojetos, como usinas de hidrogênio verde de bilhões de dólares em investimentos. Um levantamento, porém, indica um caminho menos glamouroso mas fundamental para atingir as metas climáticas do Brasil: projetos de eficiência e otimização.
A constatação é do Acelerador da Transição Industrial (ITA, na sigla em inglês), iniciativa que conta com o apoio da ONU e tem o objetivo de atacar as travas – financeiras, regulatórias ou de infraestrutura – que impedem o avanço de projetos necessários para a transição energética em escala global.
O grande atalho mora no “arroz com feijão” da indústria. Atualizações em instalações existentes, como a substituição de combustíveis em fábricas de cimento ou a eletrificação de caldeiras no refino de alumina, reduzem as emissões de gases de efeito estufa e também os custos operacionais.
O relatório “Financiando Projetos de Descarbonização Industrial no Brasil”, elaborado pelo ITA em parceria com a consultoria Systemiq e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), aponta que os setores industrial e de energia no país vão demandar aportes anuais entre US$ 60 bilhões e US$ 85 bilhões até 2033 para atingir a redução de emissões que o país se comprometeu no Acordo de Paris.
Já projetos em estágio brownfield (instalações já existentes) exigem investimentos consideravelmente menores: limitados à faixa de R$ 40 milhões a R$ 1 bilhão, segundo o estudo – e carregam riscos tecnológicos e de execução ínfimos em comparação aos megaprojetos.
Exemplos práticos
O relatório traz três casos concretos de projetos focados em eficiência e otimização que estão sendo apoiados pelo ITA: da Mizu Cimentos, da Apodi Cimentos e da Alcoa.
Setores como cimento, alumínio, aço e químicos são intensivos em emissões e com operações conhecidas como hard to abate (difícil de descarbonizar). Com produção anual acima de 7 milhões de toneladas de cimento, a Mizu está adotando uma tecnologia (pirólise) na fábrica de Aracaju (SE) para produzir energia a partir de resíduos de biomassa, com o intuito de substituir o uso de combustíveis fósseis.
Segundo o ITA, é a primeira aplicação dessa tecnologia no setor de cimento no Brasil. A estimativa é que, quando totalmente implementado, o projeto reduza as emissões da produção de cimento em até 32%.
O projeto do consórcio Eco Fusion, formado pelas empresas Argo Tech, Apodi Cimentos, CTEC e Self Energy, vai na mesma direção: instalará gaseificadores na fábrica da Apodi em Quixeré (CE) para produzir energia a partir de resíduos, também em substituição aos combustíveis fósseis.
Na mineradora Alcoa, o projeto foca na eletrificação das caldeiras de uma refinaria de alumina em São Luís (MA) para reduzir a queima de combustíveis fósseis na geração de calor.
Entraves
Mas se esses projetos usam tecnologias maduras, têm baixo risco e, em muitos casos, cortam despesas da operação, por que não decolam?
Muitos permanecem paralisados devido às altas taxas de retorno exigidas e aos custos de capital elevados, avalia o estudo. Como o orçamento para investimentos de capital (capex) é escasso, o projeto de descarbonização pode ficar no fim da fila na concorrência interna com outros.
“O retorno do projeto de descarbonização pode ser bom, mas muitas vezes não é tão alto ou tão rápido quanto o retorno de um projeto de expansão de produção ou de entrada em um novo mercado”, explica Marc Moutinho, líder de programas do ITA no Brasil.
A situação é agravada pela ausência de um “prêmio verde” (green premium). O mercado consumidor não está disposto a pagar mais caro por um produto fabricado com baixas emissões de carbono (como o cimento sustentável), o que torna mais difícil justificar o investimento.
Em um ambiente macroeconômico com a taxa básica de juros (Selic) na casa dos 15%, buscar dívida tradicional encarece o projeto. Segundo Moutinho, é preciso capital concessional (subsidiado) para reduzir o custo de capital e fechar essa conta.
Caminhos
O relatório do ITA aponta financiamentos com taxas subsidiadas, entre elas a linha reembolsável da Finep e o BNDES Mais Inovação, que entregam juros que variam de 3,7% a 3,9% ao ano para inovações industriais.
Para projetos de otimização padronizados, o Fundo Clima, operado pelo BNDES com taxas ao redor de 7,4% e limites de até R$ 500 milhões, é indicada pelo ITA para reduzir a “taxa de barreira” (hurdle rate) dos projetos, ou seja, a rentabilidade mínima que um investimento precisa oferecer para valer a pena.
“Embora capazes de apoiar a descarbonização industrial, esses fundos de menor custo permanecem subutilizados nessa área”, observa o relatório.
Entre as saídas para não comprometer capital do balanço patrimonial em projetos, o ITA destaca o modelo de “sustentabilidade-as-a-service”. Neste arranjo, empresas fornecedoras financiam, constroem e operam ativos de descarbonização (como geração de calor ou equipamentos de transformação de resíduos em energia) em troca de uma taxa de serviço.
“Você transforma uma despesa de capital numa despesa operacional, que em geral é muito mais fácil para as grandes empresas industriais justificarem”, diz Moutinho.
O mercado brasileiro possui alguns provedores trilhando este caminho, como a Combio. O relatório do ITA cita dois exemplos: da Comerc, que provê modernização de sistemas elétricos da indústria cliente e cobra uma fatia da economia gerada; e a Neoenergia, que além de fornecer sistemas de calor com eletrificação também constroi pequenas plantas de hidrogênio no formato “as-a-service” para clientes.
Para fomentar esse mercado, o ITA recomenda que as grandes companhias comecem a publicar editais buscando terceirizar suas otimizações energéticas.





