Ximlóp: um livro sobre o impacto das ideias esquisitas

Como você reage quando escuta uma ideia esquisita? Um passo atrás: que critérios você usa para colocar uma ideia na caixa das esquisitas? O que essas duas coisas falam sobre você e sobre a maneira pela qual você encara o mundo e as novidades que aparecem?

Esquisita pode ser uma ideia nova e inovadora ou apenas uma ideia velha que ninguém teve coragem de colocar em prática, ainda. Pode ser uma ideia diferente da maneira como você e aqueles que o cercam normalmente pensam. Pode ser muitas coisas mais.

Como você imagina que influencia seus filhos diante de uma ideia esquisita?

Na era da performance e do oversharing – impulsionada pelos algoritmos e pelos gadgets tecnológicos, que não apenas medem horas de sono e calorias, mas atribuem valor a elas a partir da publicação imediata em rede social – somos guiados a escutar apenas o que que queremos ouvir e provocados a competir em todas as dimensões. Parece sinal de fraqueza mudar de opinião. Dá vergonha. Como desdizer o que se disse ou o que se fez, especialmente depois de exibir o dito e o feito a um grupo potencialmente infinito de espectadores?

Desapegar do que até então soava como música chega a doer.

Ora, por que ouvir opiniões diversas (diversas mesmo), ler, estudar fontes confiáveis e rever um ponto de vista seria vergonhoso? Por que admitir não ter opinião formada sobre algo torna alguém vulnerável? 

Crianças e jovens têm assistido à essa dinâmica de camarote. Podem não entender a conversa com profundidade (ainda) e não ter consciência das causas e consequências, mas certamente absorvem exemplos e imitam modelos – mesmo os involuntários – chegando a conclusões rápidas e superficiais sobre o que é certo e o que é errado. Assim mesmo, bem binário.

Cadê o cinza? Cadê o (quase um privilégio!) “não sei”? E a enxurrada de “por quês?”, ao ter que repetir fórmulas e receitas justificadas com um “sempre foi assim”? 

Até para os desafios e dilemas da parentalidade essa reflexão cai como uma luva. Não há risco de perda de respeito ou de inversão de hierarquia ao admitir erros, dúvidas ou mudança de opinião. Ao contrário, abre-se espaço à construção conjunta, à experiência, à possibilidade de voltar atrás e, mais importante, à consolidação da confiança. Pedir desculpas à uma criança pode ser revolucionário!

Tudo isso para dizer que ideias esquisitas precisam ser ouvidas, debatidas, respeitadas mesmo quando há discordância, vividas e até descartadas. Em casa, no trabalho e no consultório médico. Na escola ou nas quadras de esporte. São passos do caminho trabalhoso em direção à mudança.

Sem falar sobre a coragem de propor uma ideia esquisita. Quantas barreiras internas e externas é preciso vencer para se pronunciar? Como se portar diante do silenciamento?

Essa dinâmica se produz dezenas de vezes por dia nas mais variadas categorias de relações. São infinitas as oportunidades de puxar o fio daquela boa conversa, no trânsito ou na mesa do jantar. Que tal um concurso familiar sobre quem tem a ideia mais esquisita que vai ajudar a melhorar o mundo? 

É justamente na mesa do jantar que o personagem principal de Ximlóp, livro publicado pela recém criada Editora Joaquina, do autor e designer Gustavo Piqueira, propõe sua esquisitice – Ximlóp! – e é imediatamente calado pela família. O mesmo acontece quando resolve levar sua ideia a outros grupos. Alguns de opiniões homogêneas, outros mais plurais. É sempre soterrado por opiniões já consolidadas, às quais todos se agarram.

Depois, outra emoção emerge: como se sente quem tem suas ideias aniquiladas? O que acontece por dentro de quem não é ouvido? A história responde de forma simbólica como o vazio e o medo de ousar ocupam o lugar do novo, da energia da criação.

O papo aqui é sobre o diálogo a partir da expressão de ideias, crenças e sentimentos. Sobre uniformização e individualidade. Como navegar nesse mar social que nos rodeia – digital e offline – sendo quem se é e sem nadar para a direita ou para a esquerda só porque todo mundo está virado para lá.

Ximlóp é um livro diferentão. O título é esquisito – a gente fica na dúvida se entendeu e se está pronunciando corretamente – e fere, de cara, a regra gramatical básica de que a letra M só pode vir antes do B e do P. Um bom exercício de desconforto, desde a capa, para ser expandido para fora das páginas.

Sobre o autor

Nascido em Sorocaba, o designer Gustavo Piqueira cresceu e mora em São Paulo. Formou-se na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.  Seu estúdio, a Casa Rex, é de 1997, já recebeu mais de 200 prêmios e faz desde capa de livros até projetos para multinacionais.

PS: O livro apresentado na última coluna ESG Vem de Berço, Kaaliawiri, a árvore da vida, foi recomendado pela lista The White Ravens, publicada no último dia 9 de outubro. Cerca de 200 títulos de mais de 50 países, em cerca de 40 idiomas, são selecionados anualmente por especialistas da Biblioteca Infantojuvenil Internacional de Munique, na Alemanha, e apresentados neste catálogo em inglês. A White Ravens é referência mundial de descobertas literárias e serve como uma bússola no imenso mercado de livros infantis. Kaaliawiri também recebeu, nesse período, o selo Altamente Recomendável 2025 – categoria Tradução Adaptação Reconto, da Fundação Nacional do Livro Infantojuvenil, referente à produção de 2024. A 51a edição da seleção anual reconheceu 172 títulos entre os 824 recebidos.